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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O DISCURSO LACUNAR - IDEOLOGIA - 2° ANO - SOCIOLOGIA

3-    O DISCURSO LACUNAR
A ideologia emerge das instituições em geral: escola, família, Estado, religião, associações para fins diversos, empresas, as quais estabelecem nor­mas para as relações sociais. Por meio de agentes definidos — políticos, pro­fessores, patrões, pais, padres e pastores —, a ideologia manifesta seu dis­curso a funcionários, alunos, empregados, filhos e leigos. Fala sobre as coi­sas, as situações, interpretando-as.
Como uma máscara, a ideologia encobre o conhecimento, retardan­do-o. Não deixa ver a realidade como é de fato. Vivemos mergulhados em ideologia e não nos damos conta disso. Ora acatamos, ora resistimos a acei­tar a ideologia. A partir dela pensamos, embora nem sempre pensemos sobre ela. Integra o nosso dia-a-dia, justificando as posições que assumimos e as exigências e possibilidades dos grupos, classes ou nações. Por isso, é comum ouvirmos as expressões: "Sabe com quem está falando?" ou "É assim mes­mo, este país não tem jeito...”. Como um código de interpretação do mundo, a ideologia lê a trama dos interesses em jogo, dando-nos sua visão do con­junto das relações sociais.  Em termos de cultura, é considerada mundivisão — um conjunto de representações do mundo e do lugar do homem do mundo.
A ideologia é, pois, um processo de embaralhar o conhecimento. A ideo­logia opera de modo contraditório. Atua no sentido do conhecer e do desco­nhecer. Jamais explica tudo, apenas pretende que nos contentemos com meias-verdades. Vejamos alguns exemplos disso, selecionados de livros di-dáticos por Ana Lúcia G. de Faria:
"O homem modifica a natureza para o bem de outros homens,"
"Os índios viviam quase da mesma maneira que os homens das caver­nas. A té hoje vivem assim. Não conhecem o progresso nem precisam dele."
"Gente de outros lugares também quis vir para o Brasil: o italiano, o alemão, o japonês e muitos outros."
Será mesmo que a natureza, apropriada e transformada pelo homem, beneficia os outros homens? Teriam os índios brasileiros dispensados a "civi­lização", ou foram por ela dispensados? Que contexto histórico do capitalis­mo provocou a vinda de tantos migrantes estrangeiros para o nosso país, no final do século passado?
Os argumentos da ideologia são envolventes e convincentes, mas cheios de vazios — trata-se do discurso lacunar, segundo Marílena Chauí*. Esse discurso não fornece as explicações verdadeiras. Permanece na consta­tação dos fatos, não analisa as suas causas e camufla as intenções predomi­nantes em determinadas situações. Sem esclarecer a realidade das condições sociais, a ideologia justifica por que a sociedade é assim e não de outro mo­do. Valendo-se de explicações dos dominadores, a ideologia reduz as expe­riências históricas dos grupos sociais subalternos, minimizando suas conquis­tas e dificultando a busca de alternativas.
De fato, Marx* tinha razão: é o ser social que determina a consciên­cia. Ou seja, a consciência social não depende da ação de indivíduos isola­dos, mas, sim, da estrutura da sociedade; do modo de produzir a subsistên­cia; da exploração económica e/ou da exclusão social praticada pelas esferas político-decisórias vigentes. A ideologia quer legitimar a aceitação de deter­minadas posições político-sociais.
Como já dissemos, dispõe, para tanto, de esquemas explicativos da realidade a partir do ponto de vista dos que dominam, ou porque ocupam pos­tos de mando, ou porque detêm informações. Decorre daí a força do discurso político, económico, ou mesmo jurídico.
Sem deixar que os sujeitos envolvidos nas ações se manifestem es­pontaneamente, a ideologia abafa a essência dos acontecimentos (discurso das coisas), valorizando a aparência dos acontecimentos, a interpretação (dis­curso sobre as coisas). Por exemplo, quando se trata de educação, a ideolo­gia pode não dar vez ao discurso dos alunos, às suas reivindicações. Mas po­de dar voz aos mestres, que veiculam o discurso sobre a pedagogia, a teoria e o método de ensinar. Esse é o pensamento do filósofo Claude Lefort*, para quem a ideologia toma o lugar do verdadeiro saber. Ela produz representa­ções do real e sugere normas para o agir, no sentido conselheiro do "deve ser assim". Nascem desse modo, prescrições de comportamento social, que fornecem o tom oficial do discurso das instituições, como nos casos: "À Es­cola cabe fornecer os fundamentos do saber especializado"; "O Estado deve suprir as carências sociais"; "A Família tem por dever criar e educar as crianças".
“O discurso da ideologia é um conjunto lógico de prescrições coercitivas do saber e do agir sociais, cuja coerência está, justamente, em suas lacunas, pois não expli­ca tudo e esconde a$ intenções predominantes.”


(PARA FILOSOFAR - AAVV - CORDI, SERGIO SANTOS)

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